Colesterol

Será o colesterol o verdadeiro vilão?

Em Julho de 2002 o jornalista cientifico Gary Taubes escreveu um artigo no New York Times que colocou a comunidade médica americana em polvorosa. O título do artigo “What if it’s All Been a Big Fat Lie?”. O primeiro parágrafo do artigo foi o seguinte: “If the members of Americam medical establishment were to have a collective find-yourselfstanding- naked-in-Times-Square-type nightmare, this might be it. They spend 30 years ridiculing Robert Atknis, author of the phenomenally-best-selling “Dr.Atkins’Diet Revolution” and “Dr.Atkins’New Diet Revolution”, accusing the Manhattan doctor of quackery and fraud, only to discover that the unrepentant Atkins was right all along. Or maybe it’s this: they find that their very own dietary recommendations – eat less fat and more carbohydrates – are the cause of the rampaging epidemic of obesity in America. Or, just possibly this: they find out both of this are true”. O resto do artigo continua neste sentido. Mais tarde, em 2007 o mesmo Gary Taubes escreveu o livro “Good Calories, Bad Calories”. Tornou-se num bestseller e em dezembro de 2010 escreveu uma versão mais simplificada do livro anterior com o título “Why We Get Fat and What do about it”. Mais recentemente, em Abril de 2011, voltou a escrever um artigo no New York Times com o título “Is sugar Toxic?”.

Gary Taubes é um jornalista cientifico premiado e é hoje convidado para falar em escolas médicas americanas. Ao longo de tudo o que escreveu, este jornalista procurou demonstrar porque se criou uma fobia ao consumo de gordura e o erro em substituir a mesma por hidratos de carbono. Mas vamos a alguns factos.

Os egípcios dominavam a técnica da mumificação. Alguns investigadores realizaram TACs em 44 múmias, encontrando em mais de metade restos de cálcio resultante da Aterosclerose (nos ateromas também se vai depositando cálcio). Os ateromas são manifestações de aterosclerose e consistem em placas de lípidos e tecido fibroso que se formam nas paredes dos vasos sanguíneos, levando às doenças cardíacas. E se artéria, aonde se formam estas placas, for uma que irriga o cérebro, então pode conduzir a um AVC. Os investigadores ficaram surpreendidos pelo achado, considerando que os egípcios não fumavam, e eram conhecidos pela sua dieta primariamente de fruta, vegetais e grãos, com pequenas quantidades de carne magra. Poderemos até afirmar que se alimentavam de acordo com a pirâmide ou roda dos alimentos que nos é ensinada. Os grãos moídos seriam mais integrais que os dos nossos dias dada a maquinaria inexistente à época para os moer. Então porque terão desenvolvido doenças cardíacas? Faziam uma dieta alta em hidratos de carbono que os levava à obesidade, inflamação e resistência insulínica. A resistência insulínica leva aos diabetes do tipo 2.

Durante a guerra da Coreia nos anos cinquenta os patologistas fizeram autópsias a soldados de ambos os lados, americanos e coreanos. Nos americanos, que até eram nalguns casos bastante jovens, foram encontrados princípios de ateromas, enquanto os coreanos não os apresentavam. A conclusão tirada na altura pelos patologistas americanos foi que os soldados coreanos não tinham tais indícios porque consumiam menos gordura que os americanos.

Nos anos 50 tinha começado a fobia à gordura e acusação de que era esta a responsável pelo aumento de doenças cardíacas entre os americanos. É certo que havia um significativo diferencial no consumo de gordura entre os dois lados, mas a diferença mais importante estava no consumo de açúcares. Se análise fosse feita sobre o consumo de açúcares a acumulação de placas (ateromas) nos vasos dos soldados americanos também se justificaria.

Ainda nos anos 50, uma personalidade importantíssima americana teve o seu primeiro ataque cardíaco, nada menos que o presidente americano Eisenhower. Nessa altura, em 1957, um dos grandes defensores do consumo de hidratos de carbono em detrimento de gordura, o cientista americano Ancel Keys da Universidade do Minnesota, surgiu com a sua explicação para o caso e que se tornou convincente ao longo de muitos anos – até aos nosso dias. Segundo Keys, o problema estava no consumo de gordura. Hoje sabe-se que o colesterol do presidente americano era normal na altura, e que este passou o resto da vida a fazer uma dieta de pouca gordura, mas o seu colesterol foi subindo ao longo dos anos, tendo tido outros ataques cardíacos. Na altura não foi dada devida importância ao facto do presidente ser um grande fumador. O fumar promove os estados inflamatórios.

Voltando a Ancel Keys, talvez o grande responsável pelo estado da nossa alimentação actual e as suas consequências, este apresentou um estudo de 7 países, no qual mostrava uma clara relação entre o consumo de gordura e as doenças cardíacas. Na parte inferior da curva (gráfico) estava o Japão, com poucas doenças cardíacas e pouco consumo de gordura. No topo da curva estavam os Estados Unidos com a situação contrária. Tudo fazia sentido e Ancel Keys chegou ser capa da revista Time. Porém, hoje sabe-se que Keys estudou na realidade 22 países e só apresentou os 7 que corroboravam a tese que defendia, a sua tese. Ora isto até é fraude científica. Mas, se o mesmo Keys no gráfico de 7 países tivesse relacionado as doenças cardíacas com o consumo de açúcares a correlação também se verificaria.

Gráfico Apresentado por Ancel Keys

 

Gráfico com os 22 países

Nos últimos anos, o equívoco quanto à gordura da nossa alimentação ser a responsável pelas doenças cardíacas tem-se vindo a desfazer. Muito recentemente o cirurgião cardíaco Dr Dwight Lundell, publicou o livro “The great cholesterol Lie”. Este médico que fez mais de cinco mil cirurgias cardíacas reconhece agora, no seu livro, que o problema das doenças cardíacas não está no colesterol, mas sim no traço comum que encontrou entre todos os pacientes que se deitaram na sua mesa de operações, a inflamação. Os processos inflamatórios são os grandes responsáveis pelos ateromas. E qual será o grande promotor das inflamações? Os açúcares! Começando pela sacarose, maltose, lactose, frutose e todos os outros ‘oses’, mas não deixando de lado outras substâncias tóxicas como o tabaco. Quanto menos colesterol tivermos na nossa alimentação mais o nosso corpo produzirá. O colesterol é essencial para a nossa saúde e inclusivamente contribui para a longevidade. Sem colesterol teremos dificuldade em produzir hormonas essenciais para funcionarmos.

O colesterol faz parte do nosso sistema de defesa. O professor Kenneth Feingold e o seu grupo na Universidade da Califórnia publicaram estudos interessantes. Num deles, baixaram o colesterol LDL em ratos através de drogas e o resultado foi que morreram mais facilmente após a uma injecção com toxinas de uma bactéria. A alta mortalidade não se deveu à droga para baixar o colesterol, porque se dessem uma injecção com lipoproteínas (colesterol) humanas os ratos sobreviveriam. Noutra experiência, investigadores da Holanda injectaram uma bactéria ou as suas toxinas num rato normal e num rato com colesterol elevado. Verificou-se que todos os ratos normais morreram e a maioria dos que tinham colesterol sobreviveram.

A guerra para baixar o colesterol tem gerado receitas de biliões de dólares ($30,000,000,000 por ano) para as farmacêuticas sem que se consiga provar que os “statins”( Zocor, Lipitor e Pravachol, por exemplo), medicamentos para baixar o colesterol, tenham diminuído as doenças cardíacas. Os seus efeitos secundários, esses sim, não podem ser negligenciados, pois estimularam o crescimento de cancros em ratos, destruíram funções musculares, do coração e do cérebro e as mulheres grávidas que tomem “statins” podem dar à luz crianças com malformações. Se retirarmos toda a água do nosso cérebro o que fica é gordura. Ao evitarmos a gordura estamos também a evitar as vitaminas lipossolúveis.

Não será o açúcar ou mais precisamente os vários açúcares os grandes culpados de muitas das nossas doenças actuais? Em 1926 o prémio nobel Dr. Otto Warburg, formulou uma teoria que hoje é usada no rastreio do cancro. Quando se pretende saber qual a extensão das células cancerígenas faz-se um “PET scan”. Neste exame injecta-se um líquido que vai marcar as células cancerígenas. Este líquido tem um componente essencial para descobrir as células malignas, a glicose. Estas células segundo Otto Warburg só conseguem produzir energia e sobreviver a partir da glicose, por fermentação e na ausência de oxigénio. As células sãs, por outro lado conseguem produzir energia através do resultado do metabolismo da gordura ingerida ou da queima da gordura corporal, as cetonas. Se privarmos as células cancerígenas de glicose estas não terão forma de sobreviver. Ou seja, a nossa fonte de energia deveria ser o produto do metabolismo da gordura. É para esta fonte de energia, as cetonas provenientes do metabolismo da gordura, que a “máquina” humana está preparada há centenas de milhares de anos atrás. Durante estes longos anos, o corpo humano teve necessidade de estar preparado para usar a gordura corporal como fonte de energia, pois não era possível caçar com a abundância necessária todos os dias. Na ausência de caça a gordura corporal tinha que ser usada.

No entanto, a nossa alimentação de hoje rica em hidratos de carbono tem impedido que tal aconteça. Se consumirmos hidratos de carbono o nível de insulina nunca baixará o suficiente para que a gordura corporal seja usada como fonte de energia. Enquanto esta hormona estiver alta, o tecido gordo será incapaz de libertar ácidos gordos não esterificados, que seguidamente se transformarão em cetonas, e estas serão uma óptima fonte de energia para todas as células. Por outro lado, a insulina alta terá um outro efeito indesejado, a acumulação de gordura. Esta hormona é responsável pela acumulação de gordura. Tem a capacidade de “abrir” as células introduzindo-lhes glicose resultante da digestão, mas enquanto a glicose estiver alta no sangue, a insulina será responsável por baixar os níveis da mesma. O excesso de glicose torna-se venenoso. Assim o excedente de glicose será “empurrado” pela insulina para o tecido gordo.

Em conclusão tudo devemos fazer para diminuir o nível de insulina. Só há uma forma de o fazer, reduzir os estímulos à sua produção, mais concretamente reduzir os hidratos de carbono que dão origem a glicose, que por sua vez estimula a produção de insulina. Ainda sobre a relação entre o consumo de açucares e os cancros, os seres vivos estão munidos de um mecanismo de morte celular programada, a apoptose. Sempre que uma célula ao ser copiada a partir da original sai em erro, esta célula é programada para morrer, porque pode dar origem a células tumorais. A insulina alta, estimulada pelo consumo de açucares interfere no mecanismo apoptose, ou seja, a morte programada de células potencialmente tumorais deixa de funcionar.

As gorduras más são as hidrogenadas, as margarinas por exemplo. São estas que promovem a inflamação. Os óleos vegetais também devem ser seleccionados com cuidado. Tirando o azeite poucos mais restam. Se usarmos a tradicional banha de porco será sem dúvida uma boa opção. Qualquer alimento embalado que contenha uma gordura hidrogenada (“trans fat”) deve ser evitado. São os processos inflamatórios, a inflamação o grande perigo.

Já todos terão ouvido falar que a aspirina tomada com regularidade tem um efeito benéfico. A explicação dada é que a aspirina torna o sangue mais fluído. Mas a aspirina é também um anti-inflamatório actuando na prevenção dos processos inflamatórios.

Um dos indicadores usados para detectar a eminência de um ataque cardíaco é a análise à proteína C reactiva, um marcador inflamatório, que se encontra sempre elevado aquando deste episódio. Na realidade devíamos verificar com frequência este marcador através de análises ao sangue, de forma a detectarmos processos inflamatórios latentes dos quais muitas vezes nem nos apercebemos, mas que vão promovendo a formação dos ateromas.

Em Janeiro de 2009, o jornal “American Heart Journal” reportou que das 137.000 pessoas admitidas em 500 hospitais nos USA com ataques cardíacos perto de 75% tinham o LDL em níveis normais.

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